O Rio Negro registrou em março de 2026 o menor nível para o mês desde 1902. A seca extrema afetou o abastecimento de água, a navegação e a vida de comunidades que dependem do rio.
O Rio Negro atingiu em março de 2026 a cota de 17,8 metros na régua de Manaus — o menor nível para o mês desde que o monitoramento sistemático começou, em 1902. A seca extrema, que se seguiu a um período de cheia intensa em 2025, pegou de surpresa comunidades ribeirinhas que dependem do rio para tudo: transporte, alimentação, água.
Na comunidade de São Sebastião do Cuieiras, a 80 km de Manaus por rio, o porto ficou inacessível para embarcações maiores por mais de três semanas. "A gente ficou sem receber mantimentos, sem poder levar doente para a cidade", conta o comunitário José Araújo, 61 anos. "Foi muito difícil."
O abastecimento de água em Manaus também foi afetado. A Companhia de Saneamento do Amazonas (Cosama) precisou reduzir a pressão da rede em bairros da zona leste da cidade, onde o sistema de captação fica mais próximo ao rio. Cerca de 80 mil pessoas ficaram com abastecimento irregular por mais de duas semanas.
Pesquisadores do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) associam a seca extrema ao fenômeno El Niño e às mudanças climáticas globais. "O que estamos vendo é uma amplificação dos extremos climáticos", diz a pesquisadora Adriana Silveira. "Cheias mais intensas, secas mais severas, com intervalos cada vez menores entre elas."
Para as comunidades ribeirinhas, o impacto vai além do imediato. A seca extrema mata peixes, destrói roças de várzea e afeta a reprodução de espécies que são base da alimentação local. "A gente pesca menos a cada ano", diz o pescador Manoel Oliveira, de Novo Airão. "O rio está mudando."
A Defesa Civil do Amazonas declarou situação de emergência em 23 municípios. O governo federal liberou R$ 45 milhões em recursos para assistência às populações afetadas.